
Atos 15:1-35.
Peguei-me pensando outro dia nos ciclos que
envolvem a nossa vida e atividades. Pensamentos que não são originais, pois o
autor de Eclesiastes já havia declarado de forma bem mais precisa a comprovação
destes ciclos (cf. Ec 3). Relendo o texto observei que cada ciclo tem um começo
e um fim, mas não são únicos. Existe um processo complexo, pois enquanto há o
ciclo para a vida (nascer e morrer), outro ciclo se desenvolve dentro deste que
é o da manutenção da própria vida (plantar e colher), e assim por diante: matar
e curar; derribar e edificar; etc. Todo este processo revela precisão,
coerência, coesão e consumação. Enquanto o ciclo maior não terminar (que para
mim é o plano divino da redenção), os demais ciclos conclusos levam a novos
ciclos por concluir; ou seja, em um jargão evangeliquês: “quando uma porta se
fecha outra se abre ali”.
O término de um ciclo e o início de outro
promove o que comumente chamamos de “transição” ou “mudança”, que nem sempre é
bem recebida ou operada, mas ocorre dentro deste complexo processo que é a
própria história que caminha para um final ou propósito. Entender estas
“mudanças” é necessário para se evitar choques e prejuízos, e para operá-las de
forma que promovam as bênçãos que as acompanham.
Este é o foco que ocorre no capítulo 15 de
Atos, quando encontramos a Igreja ainda passando por um momento de transição,
ou seja, a desvinculação do judaísmo, que só foi concluída quando os cristãos
se recusaram a lutar ao lado dos judeus na revolta e consequente destruição de
Jerusalém no ano 70 pelos romanos. Sabemos que o Novo Testamento começou com a
morte e ressurreição de Cristo (cf. Hb 9:16), sendo a constituição da igreja
uma das primeiras obras resultante deste novo ciclo (testamento ou aliança).
Entretanto os primeiros cristãos eram predominantemente judeus e viviam sob a
cultura judaica, havendo a necessidade deste período de mudança, que no
contexto deste capítulo em Atos estava gerando uma crise. O sectarismo, a visão
limitada e a incompreensão da revelação progressiva de Deus fomentaram esta
crise quando os gentios começaram a fazer parte desta nova comunidade e novo
ciclo. Inicialmente a igreja em Jerusalém, através da experiência de Pedro na
casa de Cornélio, teve uma atitude de aceitação dos “prosélitos”, que
similarmente viviam as mesmas práticas cultuais. Contudo o problema
intensificou-se e eclodiu quando os “gentios” (não prosélitos) se converteram,
pois estes vinham de um contexto “pagão” e totalmente desvinculado da cultura
religiosa judaica. Esta tensão histórica é o ambiente que precisamos para
analisar como uma transição ou mudança deve ser operada de forma que traga as
bênçãos.
Quero focalizar neste texto de Atos 15:1-35
três situações que apontam para as reações, ou seja, a tensão provocada pela
mudança; as resoluções acertadas e os resultados positivos advindos de boas
decisões.
Como observado anteriormente os ciclos não
são estanques, mas envolvem um tempo de transição ou de mudança. Portanto a
expansão do evangelho e a consequente receptividade dos povos gentílicos
trouxeram uma tensão cultural para dentro da própria igreja que, apesar de ter
sido instruída sobre esta questão (cf. At 10), ainda não havia assimilado
realmente as implicações desta revelação. Os primeiros cristãos ainda estavam
apegados à sua cultura judaica. O choque foi inevitável, principalmente porque
algumas atitudes, ou reações, foram desenvolvidas diante da mudança.
É preciso reconhecer que toda mudança traz
desconforto, principalmente quando negligenciamos a direção e a vontade divina.
Este era o caso dentro da igreja de Jerusalém. A dificuldade em reconhecer os
caminhos de Deus e a associação às questões culturais enraizadas revelou a
intransigência de alguns homens (At 15:1-2), que os deixaram completamente
cegos diante deste período de mudança. Para estes era necessário “preservar” um
fundamento que não tinha apoio nas Escrituras, pois o que estava em evidência
era a mixná (leis orais e decisões rabínicas legais), deixando de compreender a
essência da verdade revelada e ensinada por Jesus. O que estava em jogo era a
afirmação das Escrituras, mediante a nova revelação, frente à tradição
rabínica. Não é de admirar que tal tensão tenha gerado uma calorosa discussão.
Por sua vez, tal postura levou a uma visão unilateral (At 15:5), pois estes
homens foram incapazes de reconhecer a operação de Deus em sua história (At
15:3). Apesar do que Deus estava fazendo entre os gentios o importante era
manter a “tradição”. O ambiente de disputa produziu o partidarismo (At 15:1,
24), que promoveu rapidamente a disseminação das ideologias, sem reconhecer a
vontade de Deus sobre a questão, ou até mesmo em oposição à liderança de
Jerusalém quando agiram autonomamente.
O ambiente tornava-se inóspito e poderia ser
um empecilho para o progresso do novo ciclo se algumas resoluções acertadas não
fossem deliberadas e executadas. A primeira destas decisões foi buscar um meio
de eliminar a contenda através de um mediador abalizado (At 15:2, 7). Nada mais
coerente do que esta atitude, pois a existência de partidos exige a presença de
um mediador que seja reconhecido como autoridade sobre ambos, e assim julgar a
questão. Há ainda o fato de que este terceiro poderá ter uma visão livre de
interferências ou ideologias dos partidos em disputa. O importante é que as
contendas fossem eliminadas para que uma avaliação acurada fosse realizada. O
debate ainda persiste mesmo diante do mediador (cf. At 15:6), contudo uma nova
resolução tem início tomando como base a compreensão da vontade de Deus para a
comunidade (At 15:7-11). Nem sempre é fácil perceber os caminhos divinos (cf.
Is 55:9), que nestas circunstâncias foram identificados através da experiência
passada de Pedro com o prosélito Cornélio, que revelou o propósito divino (cf.
At 10; 11:1-18); e com as ações divinas observadas por Paulo, Barnabé e toda a
comunidade cristã nas várias regiões do império (At 15:3; 12). Foram duas
situações e circunstâncias diferentes e contínuas (persistiram durante tempos,
ou seja, não foram esporádicas e locais) que conduziram a compreensão da
vontade divina no desenvolvimento deste novo ciclo. Isto era a garantia de que
esta situação com os gentios pagãos era parte de um plano divino. Sendo assim,
uma última resolução deveria ser empregada, ou seja, buscar uma fundamentação
bíblica para esclarecer os atos divinos (At 15:15-18). Tiago identifica este
momento histórico do mover de Deus com a declaração profética de Amós (Am
9:11-12), e a interpreta para mostrar que “uma vez que o propósito presente de
Deus é chamar dentre os gentios um povo para si, Tiago adverte a assembleia a
não perturbar os cristãos gentios colocando-os sob a lei de Moisés”, pois “no
tocante à salvação, o único elemento essencial é a fé”, sendo que o “programa
de Deus para Israel não tinha sido abandonado por causa da entrada dos gentios
na igreja”. Portanto a mudança experimentada no início deste novo ciclo era
parte integrante do propósito divino e deveria ser acatada.
Compreendido a necessidade da mudança e as
ações tomadas para debelar a crise por ela causada, restava agora à comunidade
cristã desfrutar dos resultados positivos advindos desta decisão. Percebe-se o
imediato consenso entre os cristãos judaicos, helenistas, prosélitos e
gentílicos através de uma resolução (At 15:19-29), que tinha por objetivo
promover e preservar a comunhão entre os membros desta nova comunidade (cf. Ef
2). Seria esta situação um eco da argumentação de Paulo para que os cristãos
pensassem as mesmas coisas (cf. Fp 2:1-2)? O que posso afirmar é que os líderes
buscaram e desfrutaram de um consenso que promoveu a comunhão entre os
diferentes grupos, sendo estabelecido um fundamento para todos. Tal base
assegurou a harmonia entre os relacionamentos, ou seja, o partidarismo e a
intolerância foram dissolvidos (At 15:31; 33), apesar de Paulo encontrar
problemas em seu ministério causado por judeus e não por cristãos judaizantes,
pois entendo que a carta aos Gálatas foi escrito antes deste Concílio. Portanto
neste novo ambiente floresceu o ministério da Palavra de Deus (At 15:32-35),
principalmente através da aceitação do ministério de irmãos judeus entre os
helenistas e gentios (v. 32, 34); e através da edificação espiritual da igreja
(v. 35).
A mudança é de fato um canal desconfortável
quando sua operação promove a crise apenas. Mas se decisões acertadas forem
buscadas, então o resultado será uma bênção. Temer as mudanças não nos leva a
nada, assim como o ansiá-la para simplesmente erradicar o velho, o ultrapassado
ou o tradicional. A mudança benéfica é aquela que ocorre no final de um ciclo e
começo de outro, possibilitando a compreensão dos caminhos divinos e o
desfrutar de um novo ciclo. Portanto, que venham novos ciclos para que
prossigamos em viver segundo a plena vontade e propósito do Senhor.
Bibliografia:
Comentário Bíblico Popular. William
Macdonald. Editora Mundo Cristão, 2008.
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